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Primordial Gnosis



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Diagrama
1. A Gnose Primordial
2. A Matéria é má
3. O tempo é mau
4. O deus criador
5. A criação do mundo
6. A criação do homem
7. O Deus Incognoscível
8. Corpo, alma e Espírito
9. Três tipos de Homens
10. Satanás, opressor
11. Lúcifer, libertador
12. A Serpente da Salvação
13. Caín, o Imortal
14. Os planos do deus criador
15. Morte e reencarnação
16. Manvantaras e pralayas
17. A Grande Conspiração
18. Luz e escuridão
19. As lojas branca e negra
20. Rebeldia e oposição
21. A Iniciação Gnóstica
22. A libertação verdadeira do Espírito

Clique em cada capítulo para acessar o conteúdo.

 

17. A GRANDE CONSPIRAÇÃO

Em todas as épocas, as instituições religiosas e políticas do demiurgo na Terra conspiraram deliberadamente para eliminar, ou ao menos diminuir, a visão Gnóstica onde ela aparecesse. Proíbe-se ou deforma todo o pensamento por trás do qual possa haver algum vestígio da Gnose Primordial. Quão perigoso é o conhecimento Gnóstico para os planos do demiurgo. O ocultamento da Verdade forma parte do plano orquestrado para que os homens não possam despertar e muito menos rebelarem-se. Trata-se para que os seres humanos permaneçam confusos, enganados e adormecidos, para que nunca cheguem a imaginar quem são realmente e em que situação se encontram. Trabalha-se para que nunca conheçam a verdade do que ocorreu, nem em que consiste seu presente, nem qual será seu futuro. Pretende-se que nenhum homem possa jamais conhecer as respostas corretas às três perguntas fundamentais: Quem sou eu? Por que estou aqui? O que devo fazer?

Mas a Verdade nunca desaparece. Perseguida e ocultada, sempre lutará para sair à luz. O pior que pode ser feito com a Verdade é proibi-la. Produzir-se-á o efeito contrário: surgirá com maior força e violência. O que é a primeira coisa que deveriam ocultar?

Em primeiro lugar, seria necessário eliminar a idéia de que mais além do demiurgo ineficiente, existe outro Deus, superior a ele e infinitamente perfeito.

Para poder escurecer esta parte da Verdade Gnóstica se tem inventado a idéia de que o deus criador e o Deus Incognoscível são a mesma coisa, que juntos formam o único deus existente: o demiurgo, criador do céu e da terra.

No começo do cristianismo, o grande mestre Gnóstico Marción deixou bem claro: “o deus do antigo testamento não é o Deus do novo testamento. São deuses diferentes. O primeiro é um deus que aplica a lei e castiga, enquanto o outro é um Deus de amor que sempre perdoa. Ambos são inconciliáveis.”

O se pode fazer para ocultar esta informação? Foi Orígenes que teve a “brilhante” idéia: “Não existem dois deuses diferentes, um justo e outro bom. É o mesmo Deus, que é justo e é bom.” Esta foi a maneira que o demiurgo encontrou para ser bom e perfeito.

Em segundo lugar, foi eliminado também, desta forma, a diferença entre o mundo incognoscível e o mundo criado. Tudo aquilo que se refira à existência de dois reinos irreconciliáveis, será taxado depreciativamente de “dualista”, como se descrever a realidade desta maneira fosse algo mau. Os conspiradores reduziram tudo a um só reino: o reino do demiurgo.

Em terceiro lugar, se o demiurgo é bom e perfeito, em quem podemos colocar a culpa de todo mal que existe hoje no mundo? Se os atributos do Deus Incognoscível foram transladados ao demiurgo, o que fazer com os atributos demiúrgicos de maldade e incompetência, de plágio e de mentira?

Por isso se recorreu à invenção de que o demiurgo não é satanás, satanás é outro. O demiurgo tornou-se bom e perfeito, foi despojado de sua roupagem satânica. Todo mal provém agora desse novo satanás que é exterior a ele, ao demiurgo. O mal do demiurgo foi transferido para fora, a um satanás diferente do criador. Agora este novo satanás é que gosta de sangue, do odor da carne queimada, dos escravos, das guerras, dos rituais, dos sacrifícios, das conspirações e dos genocídios. Agora é este novo satanás que se agrada com os homens , que se postem ante ele, que o adorem e que façam alianças ou pactos de sangue com ele, em troca de poderes ou riquezas materiais. É fácil descobrir que todas essas características que satanás tem hoje, têm sido tomadas do deus criador da bíblia.

Assim, teremos isto: Deus Incognoscível não existe, seus atributos foram transladados ao demiurgo, e os atributos do demiurgo foram transladados a um satanás exterior a ele. O que falta agora nesta grande conspiração, nesta grande trapaça? Falta encontrar alguém a quem possamos transformar nesse satanás. Deve ser alguém a quem tenhamos muito ódio, pois a figura do satanás é o mais indigno que possa conceber-se.

Em quarto lugar, assim surgiu a ocorrência ponto alto desta conspiração: alguém vislumbrou que o mais apropriado seria divulgar que esse satanás maligno não é outro que Lúcifer. Desta maneira, não só o demiurgo foi “limpo” de sua natureza satânica, como foi distorcida a figura de Lúcifer. O Anjo da Luz, enviado pelo Deus Incognoscível para salvar os homens, veio a transformar-se em um monstro cuja função é a de manter os homens escravizados. Esta genial idéia foi dos representantes do demiurgo na terra e demonstra um vingança contra Lúcifer, o inimigo eterno do satanás verdadeiro.

De duas entidades opostas e irreconciliáveis, o deus criador e o Deus Incognoscível, foi feita uma só: o demiurgo “bom e único”. De dois mundo opostos e irreconciliáveis foi feito um só, que é “bom”: o do demiurgo. Da mesma forma procederam com outras entidades opostas e irreconciliáveis: Lúcifer e satanás, o Enviado do Deus Verdadeiro e o satanás criador da matéria e do tempo. Os transformaram numa só entidade: o “Lúcifer satânico”. Assim conspiram contra a verdade os charlatães do demiurgo.

Até o dia de hoje, persiste esta crença de que satanás e Lúcifer são uma e a mesma coisa, a quem também chamam de diabo. No Novo Testamento já se encontra estabelecido que Lúcifer é igual a satã (Lucas, X-18) (Coríntios, XI-14). Inclusive Monseñor Meurin, na sua obra que temos citado, incorre nesta mesma confusão: denomina o demiurgo “Jehová-Lúcifer” e não “Jehová-Satanás”, achando estar correto em sua linha de raciocínio. E se Meurin, um teólogo tão renomado dentro do catolicismo romano cometeu este erro, o que podemos esperar do homem comum?

Em quinto lugar, como se pode desvirtuar a idéia Gnóstica de que este mundo criado é o inferno e que o céu é o plano do Deus Incognoscível? Os conspiradores elucubraram o seguinte: afirmaram que este mundo não é o inferno, o inferno está fora, longe daqui. O inferno seria um lugar de castigos para quem desobedeça o demiurgo, durante sua vida aqui na Terra. E que características teria o inferno? A alguém ocorreu que as características próprias do mundo incognoscível poderiam servir muito bem como cenário para este novo inferno. Se Lúcifer, o Portador da Luz, um ser de fogo a quem se representa envolto de chamas, é satanás, então podemos dizer que este inferno seria um lugar cheio de fogo. Um lugar onde são queimados os “pecadores”. Segundo os Gnósticos, o reino incognoscível é efetivamente um fogo anti-matéria que incomoda esta criação impura e se pudesse a aniquilaria, mas para eles esse fogo é algo bom e desejável, nada satânico.

Em sexto lugar, o Espírito foi outra das coisas que consideraram importante eliminar, ao menos deformá-lo até torná-lo irreconhecível. Os representantes do demiurgo na Terra não podiam permitir que, depois de todas as adulterações, persistisse a crença de que existe algo não-criado e divino dentro do homem. Tinham que eliminar o Espírito também.

Já vimos também que para os Gnósticos o homem está composto de três partes: corpo, alma e Espírito. O corpo e alma foram criados pelo demiurgo, enquanto que o Espírito foi capturado do plano do não-criado e eterno e não pertence a esfera de criação. A alma e o Espírito, as entidades não visíveis para o olho humano comum, são perfeitamente opostas e irreconciliáveis. A alma foi criada pelo demiurgo, é o que anima o corpo, o que anima, o anímico. A alma somente anseia unir-se a seu criador, fundir-se com ele. O Espírito, pelo contrário, é um prisioneiro neste mundo estranho, que não lhe pertence e que para Ele é um inferno. Ele deseja somente libertar-se e voltar ao mundo incognoscível de onde provém. Para o Espírito, o corpo e a alma são tão horríveis como a matéria e o tempo.

Para o demiurgo e sua criação, é necessário e fundamental que o Espírito permaneça amarrado a alma do homem. Seu projeto evolutivo não pode abrir mão dos Espíritos encadeados na matéria. Mas uma coisa é importante: o demiurgo deseja que isto permaneça em segredo, que os homens jamais possam perceber que possuem em seu interior uma chispa não-criada roubada de outro mundo.

Então, para eliminar a idéia Gnóstica de Espírito, os agentes do demiurgo na Terra tiveram a engenhosa idéia: de duas entidades, opostas e irreconhecíveis, haveria somente uma. Do Espírito tomariam todas suas características divinas de perfeição e pureza. Somente omitiriam seu aspecto não-criado, pois se os homens descobrirem que tem algo não-criado em seu interior, começariam a fazer perguntas, e isso “não é bom”. Todas as virtudes do Espírito seriam transladadas a alma, que assim, de satânica passaria a ser perfeita. Já não voltaria a falar mais de Espírito não-criado. Agora ficaria apenas uma entidade no corpo humano: “a alma divina e perfeita criada por Deus”.

Dissemos que, no começo do cristianismo, os primeiros teólogos cristãos, Santo Agostinho, entre outros, se referiam sempre ao corpo, alma e Espírito do homem. Mas com o passar dos anos isto foi desaparecendo. O Espírito foi se “transformando”, primeiro em “intelecto”, logo em sinônimo de alma, até que um belo dia se decidiu eliminar por completo o Espírito como parte constituinte do ser humano, restando somente corpo e alma. A conspiração teve êxito: conseguiu que os homens se esquecessem do Espírito.

E não somente no cristianismo, mas em todas as religiões do demiurgo se fala exclusivamente de corpo e alma como os únicos constituintes do homem.

Não somente se conseguiu eliminar quase que totalmente a idéia de algo não-criado dentro do homem, mas também obtiveram o mesmo êxito parcial com a idéia de que existe um prisioneiro injustamente encarcerado nele. É melhor que ninguém saiba por que foi aprisionado o Espírito, pois os homens começariam a perguntar-se coisas e até alguns poderiam despertar. É melhor que continuem com sua cegueira, falando de temas menos perigosos como o futebol ou o sexo.

Em sétimo lugar, para distorcer a afirmação Gnóstica de que esta criação é imperfeita devido ao fato de que seu criador é um ser imperfeito, os conspiradores deveriam aguçar ainda mais seu gênio satânico. A imperfeição de todas as coisas deste mundo é algo tão evidente e palpável que é impossível negar. Por mais idiotizados que estejam os homens, jamais admitiriam que este mundo é um paraíso.

O que fazer então? Como justificar que “um demiurgo perfeito” criou semelhante monstrengo? Além do que, os Gnósticos opunham a criação errônea, realizada por um demiurgo plagiador e ineficiente, ao reino não-criado e eterno de Deus Verdadeiro. Como fazer para eliminar estas perigosas idéias? Ocorreu-lhes uma solução que aboliria a idéia de mundo não-criado e imperfeito, ao passo que derrubariam as suspeitas de que um demiurgo inexperiente,como criador do mundo. Esta solução seria útil também para justificar o inocultável: a impureza e imperfeição do mundo criado. Que engano pregaram desta vez? Veremos logo.

Todos os atributos que caracterizam o reino de Deus Incognoscível foram transladados a criação do demiurgo, não a esta criação, mas a outra anterior. Uma suposta criação do demiurgo que era, essa sim, perfeita e pura. Ou seja, o demiurgo, dito perfeito, foi capaz de criar um mundo perfeito e puro. Até aqui, notamos que já não há lugar para o Deus Incognoscível e seu reino, uma vez que o demiurgo, dito agora perfeito, realiza obras perfeitas. Mas, o que ocorreu para que toda essa criação perfeita tenha se convertido em algo tão imperfeito como é agora? Aqui está a genialidade dos apóstolos do engano: a criação se transformou em impura e imperfeita por culpa do homem. O criador, um ser perfeito, fez o mundo perfeito, mas o homem o arruinou. O paraíso era perfeito, mas o homem e a Serpente Lúcifer destruíram essa perfeição, “caindo” com ela.

Temos então um criador perfeito e bom que realizou uma obra boa e perfeita. Toda sua criação, a matéria, o tempo, o homem, eram bons. O paraíso era um lugar perfeito e o homem vivia feliz ali. Tudo isso caiu e se degradou por culpa da desobediência do homem. Afirmar que o homem tem a culpa do “pecado original” e da “caída”, tem sido uma das mais vis idéias concebidas contra o Espírito e contra o Deus Verdadeiro. Responsabilizou-se o homem pela incompetência do criador e pelas deficiências de sua obra!

Já vimos que no paraíso o homem não era mais que um servo ignorante. Ignorava tudo acerca de si mesmo e de seu criador, como parece ignorar todavia. Não sabia que existia outro Deus, imensamente superior ao deus criador. Não sabia que mais além de seu corpo e de sua alma, tinha aprisionado um Espírito. Não sabia até que despertou e pode rebelar-se.

Para a Gnose, o único “pecado original” que existiu foi cometido pelo demiurgo ao encadear Espíritos Eternos à alma perecível do homem. Para a Gnose, a única “caída” que existiu, propiciada pelo demiurgo, foi a caída dos Espíritos no mundo infernal da matéria.

Passamos os sete principais ocultamentos e desvirtuações, realizada contra a Gnose pelos serventes do demiurgo na Terra. Agora veremos os meios de que se valem estes conspiradores para impor melhor suas falsificações.

O objetivo é varrer com todo conhecimento que se refira ao não-criado, ao despertar do homem, a libertação dos Espíritos e a rebelião contra o demiurgo. Esse conhecimento não-criado é a Gnose, absolutamente perigosa para a Ditadura Universal Satânica. Pretende-se eliminar o saber Gnóstico porque é a máxima ameaça contra o demiurgo e sua obra.

Sua estratégia é a seguinte: deve ser destruído tudo o que se oponha ao sistema criado pelo demiurgo, e o que não possa ser eliminado deve ser distorcido e corrompido até torná-lo irreconhecível.

Stalin, agente demiúrgico, dizia: “se não podes estrangular teu inimigo, abraça-o”. assim operam contra a Gnose os agentes corretores do demiurgo. Se não se pode proibir algo, o abraça, rodeia-o pra asfixiá-lo, transformando-o em algo inofensivo. E não somente inofensivo, o conhecimento assim neutralizado e transformado muitas vezes é posto para trabalhar a serviço do demiurgo mesmo. É o caso das religiões que em seus inícios foram revolucionárias e opostas ao demiurgo, as quais logo foram infiltradas, deformadas e postas ao serviço do demiurgo, convertendo cada uma delas em uma religião demiúrgica a mais. É o caso, por exemplo, do cristianismo, budismo e tantrismo, dentre outras. Foram convertidas em religiões perfeitamente opostas ao que foram em seus começos.

Trata-se de que nenhum conhecimento possa cair fora do controle ditatorial do demiurgo. Procura-se que nenhum elemento proveniente do mundo não-criado possa por em perigo a obra e os planos do demiurgo.

Algo que continua acontecendo é queimar livros perigosos. Com certeza que isto é realizado em segredo. Os tempos mudaram e nas ditaduras “democráticas” modernas a destruição de livros é levada a cabo subliminarmente.

Já não se queimam em público, agora os livros são comprados individualmente e entregues a algum agente ou autoridade religiosa que procederá sua destruição. Quando é possível, se compram edições inteiras com esse fim, e o mesmo fazem com os direitos do autor. Existem outros métodos, mas somente descrevo os que pude comprovar diretamente. Possuo uma ampla lista de livros e autores que caíram nessa sorte, os quais não figuram entre as listas “oficiais” de livros perseguidos ou desaparecidos.

Também acontece de se perseguir ou castigar os autores desses livros. É muito comum que sejam ameaçados, cercados ou perseguidos de diversas formas. São freqüentes os roubos de manuscritos (conheço vários casos destes), sabotagens durante a impressão, etc. Por escrever livros opostos ao sistema demiúrgico, muitos autores tem sido desprestigiados, encarcerados ou levados a manicômios, e não somente em países comunistas, pois nas ditaduras “democráticas” acontece o mesmo.

Muitos autores recalcitrantes morreram misteriosamente, de enfermidades ou acidentes estranhos, nunca exaustivamente investigados. Atualmente, os esquadrões de extermínio do demiurgo, dispõe de meios imensamente eficazes para disfarçar seus homicídios. Tal tem sido geralmente o destino dos grandes rebeldes e opositores ao demiurgo e sua obra. Nesse mundo criado, o demiurgo e seus agentes tem todas as vantagens para ganhar, pois este é seu reino: o reino do demiurgo. Este reino é, para o Gnóstico, todo o contrário: é o campo inimigo onde ele deve atuar, lutar. Todo, absolutamente todo o criado estará contra ele. A guerra do Gnóstico, portanto, deverá ser da mesma maneira: total.

Tomemos o caso de Maniqueu, um grande mestre Gnóstico fundador da religião maniqueísta, a que Santo Agostinho pertenceu durante nove anos. Maniqueu existiu realmente, não se trata de um personagem fictício de mais uma religião demiúrgica .

Temendo que seus ensinamentos fossem distorcidos, Maniqueu escreveu várias obras, as quais foram perseguidas e destruídas ou ocultadas durante séculos. Quando se acreditava que tais obras estavam perdidas para sempre, foi encontrada toda uma biblioteca maniquéia na China, no século XX. Isso foi um milagre como em Nag Hammadi. Estiveram ocultas quase quinhentos anos.

Maniqueu, que jamais renunciou sua pregação, foi perseguido, encarcerado e torturado até a morte por sacerdotes do demiurgo na antiga Persa. Uma versão diz que Maniqueu foi escalpelado vivo. Arrancaram-lhe a pele e a encheram com palha para ser exibida nas portas da cidade, como advertência aos inimigos do deus criador. Outra versão sustenta que Maniqueu foi escalpelado depois de morto. Fortemente imobilizado por correntes, viveu vinte e seis dias de intensos sofrimentos e morreu. Por isto se fala de “crucificação de Maniqueu”. Assim como o demiurgo encadeia os Espíritos, assim os serventes do demiurgo encadearam Maniqueu. Mas Maniqueu não era um homem comum. Maniqueu foi um liberto em vida. A tortura e morte não podem afetar a quem tem realizado seu Espírito, ao contrário, lhes produzem risadas.

Tomemos outro caso entre muitos, o de Zenão de Eléa. Encarcerado e amarrado, durante as torturas a que era submetido, Zenão disse ao torturador: “Aproxima-te e te direi ao pé do ouvido o que queres saber.” Quando o torturador se aproximou, Zenão lhe arrancou a orelha com os dentes. O torturador, enlouquecido, disse que lhe aplicaria torturas mais fortes ainda até obrigá-lo a renunciar suas concepções. A resposta de Zenão foi a seguinte: cortou sua língua com os dentes e a jogou aos pés do torturador.

Como pode chegar-se a crer que para um homem como Zenão, realizado em seu Espírito, poderia importar-lhe o que sucederia a seu corpo e a sua alma! Esse torturador, para Zenão, só pode ter sido um pobre palhaço. A tortura e a morte antes de retratar-se: assim são os Guerreiros de Espírito.

Na gigantesca ditadura do demiurgo e seus seguidores, há outro tipo de ameaça: os castigos oferecidos pelo próprio demiurgo. Os livros sagrados das religiões de demiurgo estão cheios destas advertências: o castigo de Adão e Eva, o dilúvio universal, Sodoma e Gomorra, a torre de Babel, as pragas do Egito e muitas mais.

Para que servem os castigos, além de eliminar os opositores? Porque tantas ameaças e advertências? A resposta é simples: para infundir o medo. O medo do castigo faz que os escravos trabalhem melhor e renunciem escapar. Um escravo com medo é mais obediente e submisso. O medo do castigo é o meio que utiliza o demiurgo para fazer que os homens transcorram sua existência submetidos a ele, obedecendo seus mandamentos. Para o demiurgo, o melhor escravo é aquele que teme e obedece melhor. Ele deseja que seus escravos desperdicem suas vidas trabalhando para sua causa, pensando que quando morrerem “vão para o céu.” Esse é o escravo perfeito para o demiurgo. Ele deseja que os homens envelheçam sem rebelarem-se, sem despertar, sem libertar seu Espírito. Para isso serve o medo e para isso a conspiração: para que nunca possam achar o caminho de Libertação e do Retorno.

Na ditadura do demiurgo, os homens somente tem liberdade para escolher entre várias coisas iguais. Entre várias coisas que são a mesma coisa, mas com disfarces diferentes. Existe liberdade de pensamento desde que não se contradiga o “pensamento politicamente correto”, imposto pelos representantes do demiurgo.

Tomemos o caso das religiões. Parecem todas diferentes, mas não são. São a mesma coisa, somente diferentes nas suas aparências. O chamem Brahma, Baal, Yahvé, Jehová, Moloch, Deus Pau ou Alá, é sempre o mesmo: o demiurgo.

Pretende-se dar uma falsa impressão da diversidade, para que o homem dormido creia que há uma variedade de caminhos, com destinos diferentes e liberdade para escolher entre eles. Inclusive existem homens que mudam de uma religião a outra, crendo que com isso fazem uma grande mudança.

René Guenón, por exemplo, levou anos de estudo e meditação para tomar a decisão de abandonar o cristianismo e para ingressar na maçonaria e no martinismo, para logo renunciar a tudo isso e converter-se em muçulmano. Ele acreditava ter dado saltos imensos com essas mudanças, mas a única coisa que fez foi dar voltas em círculo dentro do seu labirinto. E se Guenón, erudito nesse temas, teve semelhante confusão, já pode imaginar o que será do homem comum.

O caso do Santo Agostinho é o mais patético de todos. Pertencendo ao maniqueísmo em qualidade de ouvinte, e a ponto de conhecer Maniqueu pessoalmente, resolveu abandonar tudo e converter-se ao cristianismo. Com sua ação, Agostinho rechaçou ao Incognoscível e ao Espírito, optando pelo demiurgo e pela alma. Opôs-se ao radical ascetismo maniqueu, para encolunar-se atrás da nova religião, mundana e imperial, de Constantino: o cristianismo.

Existem pessoas medianamente despertas que, temerosas de passar sua vida dormindo, buscam desesperadamente uma saída no labirinto em que estão imersas. Por desgraça, a maioria ignora que as opções que aparecem ante seus olhos são a mesma coisa, somente com roupagens diferentes. O objetivo de tudo isto é que nunca possam encontrar a saída, que nunca possam dar-se conta que as religiões, como os partidos políticos, são a mesma coisa com diferentes rostos, todas sob o controle do demiurgo.

O Dalai Lama disse há anos que não deveria existir uma só religião, mas um “supermercado de religiões”. É esta a melhor maneira de fazer com que os homens acreditem que estão rodeados de uma diversidade de opções diferentes, e que quando escolherem obterão algo que é distinto do resto.

A finalidade destas religiões é manter o homem adormecido, conduzindo-lhe às cegas ao matadouro final: sua fusão com o demiurgo.

> Continue lendo o próximo capítulo: Luz e escuridão

 
 


Gnose Primordial: A Religiao Proibida © 2014 by José María Herrou Aragón.